segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Medida da Significação

by Cecília Meireles, in "Viagem, Vaga Música"
Procurei-me nesta água da minha memória, que povoa todas as distâncias da vida e onde, como nos campos, se podia semear, talvez, tanta imagem capaz de ficar florindo...
Procurei minha forma entre os aspectos das ondas, para sentir, na noite, o aroma da minha duração...
Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta: desapareci como aquele - no entanto árduo - ritmo que, sobre fingidos caminhos, sustentou a minha passagem desejosa...
Acabei-me como a luz fugitiva, que queimou sua própria atitude, segundo a tendência do meu pensamento transformável...
Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta água da minha memória reúne os sulcos feridos: as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas.
E, aquilo que restaria eternamente, é tão da cor destas águas, é tão do tamanho do tempo, é tão edificado de silêncios que, refletindo aqui, permanece inefável.
Voz obstinada, por que insistes chamando por um nome que não corresponde mais a mim?
Não é do meu propósito que fiques ao longe, sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite, e como o silêncio tenta mover-se inutilmente, quando dirige teus imãs sonoros, sondando as direções!
Não é do meu propósito, ó voz obstinada, mas da minha condição.
As aparências dispersaram-se de mim, como pássaros: que Sol se pode fixar nesta existência, para te definir a minha aproximação?
Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis: como podes saber onde me circunscrevo, e de que modo me pode o teu desejo atingir?
Eu mesma deixei de entender a minha substância; tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.
Como podes chamar por mim como às coisas concretas, e assegurar-me que sou tua necessidade e teu bem?
Para experiência do teu contentamento, crio formas que vistam meus pensamentos irreleváveis, e modelo fisionomias com que te possa aparecer.
Pisarei minha solidão com renúncia e alegria e, por entre caminhos assombrados, resoluta virei até onde te encontres, cortando as sombras que crescem como florestas.
Eu mesma me sentirei alucinada e esquisita, com esse alento das nebulosas sinistras que se desenvolvem nas febres.
Não saberei precisamente quando me verás, nem se compreenderei a linguagem que falas, e os nomes que têm as tuas realidades e o tempo dos outros acontecimentos...
Mas o que, desde agora, sinto e sei com firmeza é que tua voz continuará chamando por mim, obstinada, embora eu não possa estar mais perto nem mais viva, e se tenha acabado o caminho que existe entre nós, e eu não possa prosseguir mais...
A água da minha memória devora todos os reflexos.
Desfizeram-se, por isso, todas as minhas presenças, e sempre se continuarão a desfazer.
É inútil o meu esforço de conservar-me; todos os dias sou meu completo desmoronamento; e assisto à decadência de tudo, nestes espelhos sem reprodução.
Voz obstinada que estás ao longe chamando-me, conduz-te a mim, para compreenderes minha ausência.
Traze de longe os teus atributos de amargura e de sonho, para veres o que deles resta depois que chegarem e estes ermos domínios, onde figuras e horas se decompõem.
Não precisaremos falar mais, nem sentir: seremos só de afinidades: morrerão as alegorias.
E saberás distinguir as coisas que parecem desoladas, olhando para esta água interminável e muda, que não floriu, que não palpitou, que não produziu, de tanto ser puramente imortal...





Um comentário:

  1. texto reflexivo
    intrigante
    inteligente
    intelectual
    são os 3 I´s que fazem de um post
    uma leitura envolvente e crescente.

    parabens pelo blog.
    primeira vez aqui
    esepro vir mais vezes
    e tenha uma excelente quarta!
    abraços!

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